Mercado Branco, o automatismo do consumo

Companhia de jovens atores da zona leste estreia espetáculo gestual sobre cultura de consumo


Cleo Brito

14.09.2021

A Companhia dos Ratos, de Cidade Tiradentes, usa códigos corporais, com a previsibilidade e foge à lógica para discutir o perverso Mercado Branco, uma comédia sobre a cultura do consumo, criada a partir da linguagem gestual com ênfase no trabalho físico e coreográfico, com direção assinada por Fabiano Lodi.

No enredo, diferentes hábitos e condicionamentos sociais da vida moderna se misturam e se repetem, e mesmo quando se transformam parecem perder o sentido em um mundo onde tudo vira mercadoria. Explorando a comicidade física, por meio de técnicas de Biomecânica e Método Suzuki de interpretação, esse espetáculo de humor sem palavras coloca o espectador frente ao efeito perverso do aceitável na sociedade de consumo.

A dramaturgia de Mercado Branco é formada por cenas, nas quais o uso de produtos legalmente permitidos, bem como comportamentos e hábitos sociais, adquirem características de mercadorias viciantes e se confundem frequentemente. O nome é uma referência ao termo racista "mercado negro", que impõe uma visão excludente e negativa a produtos e relações comerciais consideradas ilegais, socialmente inadequadas ou que têm consequências moralmente condenáveis. Neste sentido, o espetáculo aborda alguns "mercados brancos" como a publicidade, o armamento civil e a precarização do trabalho, buscando relacionar os efeitos maléficos (geralmente atribuídos aos "mercados negros") às mercadorias "brancas" da vida moderna em num contexto de aceitação social com discursos sedutores.

Durante os 50 minutos da peça, uma atriz (Ana Leones) e dois atores (Felipe Pinheiro e Rick Salima) interpretam diferentes personagens e situações cômicas. Levantam reflexões sobre o sentido que a vida adquire em um mundo onde se permite a transformação das coisas em mercadorias. Segundo o diretor Fabiano Lodi, “essa dramaturgia sem palavras, que prioriza o movimento e a coreografia, apropria-se dos códigos e tipos sociais para aprofundar o debate e ir além das formas prontas que nos são impostas”.

Oito cenas aleatórias, em ambiente com poucos elementos e objetos cenográficos, dão sentido ao tema da montagem trazendo a discussão da legalidade para coisas viciantes. Quatro delas desenham situações cotidianas pela repetição – como ida ao trabalho, ócio e uso de medicamentos. O humor também aparece com diferentes nuances. A cena da mídia - que traz o apelo e o estímulo à compulsão em comprar e consumir - traz contornos de um humor mais lúdico. Na cena do tabagismo, quando os vícios se confundem com um estilo de vida que se deteriora em si próprio, o humor aparece mais contemplativo, como no teatro físico europeu. O humor aparece de forma mais aberta na cena do restaurante, que performa o equívoco da classificação social quando um garçom negro, feliz em ser garçom, atende um casal branco que não paga a conta. Na cena do armamento o mercado branco é literal assim como o humor: a população estaria mais segura portando armas de fogo? As personagens brigam por um banquinho e ameaçam umas às outras com armas cada vez maiores. Ao final, Mercado Branco traz o cotidiano distorcido, alienado, deprimente, no automatismo.

Este é o segundo espetáculo da Companhia dos Ratos. O processo criativo de Mercado Branco foi desenvolvido ao logo de três anos, iniciado em 2018, no Programa Vocacional da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, que promoveu o encontro entre o diretor Fabiano Lodi e os jovens artistas de Cidade Tiradentes, bairro do extremo leste da cidade. “O que me estimulou a seguir adiante no projeto foi à paixão desses jovens pela dramaturgia do movimento, pela relação corpo/espaço no teatro. É surpreendente essa relação incomum com uma estética que exige tanto apuro técnico. Esses atores não fizeram concessões para fazer valer a importância de um trabalho tão desafiador”, finaliza Fabiano Lodi.

Fotos: ©Renato Mangolin

PROGRAMAÇÃO:

Todas as apresentações ocorrem pelo Facebook e YouTube com acesso grátis.

Duração: 50 minutos. Gênero: comédia. Classificação indicativa: 12 anos.

Estreia: Teatro Paulo Eiró

17, 18 e 19 de setembro - sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 19h.

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Teatro João Caetano

24, 25 e 26 de setembro - Sexta e sábado, às 21h. Domingo, às 19h.

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Teatro Arthur Azevedo

01, 02 e 03 de outubro - Sexta e sábado, às 21h. Domingo, às 19h.

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Teatro Cacilda Becker

08, 09 e 10 de outubro -Sexta e sábado, às 21h. Domingo, às 19h.

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Sexta e sábado, às 21h. Domingo, às 19h.

CEU Pêra Marmelo

29 e 30 de outubro - Sexta, às 19h. Sábado, às 10h.

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CEU Inácio Monteiro

06 e 07 de novembro - Sábado, às 19h. Domingo, às 16h.

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FICHA TÉCNICA:

Duração: 50 minutos. Gênero: comédia. Classificação indicativa: 12 anos.

Dramaturgia: Fabiano Lodi e A Companhia dos Ratos

Direção: Fabiano Lodi

Elenco: Ana Leones, Felipe Pinheiro e Rick Salima. Colaboração artística: Ana Carvalho, Daniel Oliveira, Leonardo Viturianna, Marcelo Henrique da Silva (Marcelinho), Marcelo Silva, Thaty Melo e Vítor Cavalcanti Pereira

Cenografia: Rafael Boese

Figurinos e objetos de cena: Jane Fernandes

Arte das placas “Vaias” e “Palmas”: Ana Leones

Costureira: Silvana Carvalho

Maquiagem: Val Martins

Assistência de maquiagem: Estefanía Ruiz Londono

Desenho de som: Rick Salima e Guilherme Paes

Operação de som: Guilherme Paes

Supervisão de desenho de som: Carlos Valério

Desenho de luz: Fabiano Lodi e Joyce Tavares

Operação de luz: Joyce Tavares

Supervisão de desenho de luz: Gabriel Greghi

Técnico de iluminação: Guilherme Orro

Direção de vídeo – gravação: Bruno Aranha Silva

Cinegrafia: Cássio Conde e Wallace Andrade

Preparação de palhaçaria e comicidade física: Amanda Massaro

Design gráfico: Nathália Ernesto

Mídias sociais: Guilherme Paes e Rick Salima

Fotos/divulgação: Renato Mangolin

Produção executiva: Joyce Tavares

Assistência de produção: Mariama Ferrari - BigHead Produções

Produtora associada: Leneus Produtora de Arte

Idealização e produção: A Companhia dos

Realização: Secretaria Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo e Ministério do Turismo - Governo Federal, por meio do da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, Módulo I - Maria Alice Vergueiro.


Assessoria de imprensa: Verbena Comunicação


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