"De modo que, então, um romancista é o mesmo que um jornalista. É isso que o senhor está dizendo?" pergunta o juiz William J. Rea durante o julgamento do caso Mac-Donald-McGinniss em 7 de julho de 1987. Frase que abre o famoso livro "O jornalista e o Assassino" (1990) de Janet Malcolm e dá um gostinho do que o leitor pode esperar da obra que tem em mãos, assim como da autora que a escreveu, uma jornalista com um olhar aguçado, perspicaz e questionador. Janet Malcolm, conhecida por seus inúmeros textos escritos para a revista The New Yorker e por ser um expoente do jornalismo literário, faleceu dia 16 de junho, aos 86 anos devido a um câncer de pulmão, segundo o jornal The New York Times. Ao lado de Susan Sontag e Joan Didion, compôs o altar de mulheres afiadas que utilizaram sua voz como instrumento para chacoalhar as estruturas. Nasceu em Praga, tendo emigrado para os Estados Unidos em 1939. Iniciou na The New Yorker em 1963, tendo dedicado quase dez anos de sua vida escrevendo sobre design e interiores, posteriormente assumindo a coluna de fotografia. Publicou livros como "Psicanálise: a profissão impossível" (1981), "Nos arquivos de Freud" (1984) e "O jornalista e o Assassino" (1990).
Seu livro "A mulher calada: Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia" (1994) expandiu fortemente sua notoriedade para além do mundo jornalístico. Desde as páginas iniciais somos fisgados pela simplicidade da escrita da jornalista (fluida e gostosa) com a descrição da realidade na sua forma mais crua. Se suas palavras ganhassem vida, vestiriam jeans e camiseta, mascarando a profundidade. Em alguns momentos, odiamos Ted e amamos Sylvia. Em outros, nos sentimos solidários e compreendemos as posições tomadas pelo marido da poetisa. Janet demonstra a habilidade de prender o leitor na teia das palavras, rompe as barreiras, fundindo fato e ficção. E nos faz indagar: onde reside a realidade e no que consiste ela a não ser uma grande interpretação? Qual o limite do jornalista diante dos fatos? A neutralidade existe? Essas e outras grandes perguntas que cercam a profissão estão presentes nas mais diversas linhas que ela se propôs a escrever.
Janet deixa uma vasta produção e a resposta para as perguntas é como a vida: relativa. Sua última postagem no The New Yorker é a respeito da publicação dos diários da escritora e fotógrafa Susan Sontag. Interessante e curioso, como um ciclo que se iniciou na fotografia e pode-se dizer que finalizou nela. Ambas carregam mais em comum do que apenas a profissão de escritoras, tanto Susan quanto Janet delineiam linhas e exploram caminhos nas mais diversas temáticas. Malcolm nos mostra que o jornalista, para além do que se pensa, pode navegar em outras águas. E artefatos como a psicanálise e a linguagem poética, por exemplo, trazem um frescor e são muito bem vindos.
Uma saudação imensa a Janet Malcolm que escreveu e conduziu sua vida com maestria.
Revisão ortográfica: Anne Preste